Acha mesmo que tem de ser o Alfa lá de casa?


Com a recente proliferação de programas de televisão e de livros sobre treino de cães instituiu-se a convicção de que o tutor tem de ser o Alfa, "o líder da matilha". Acha mesmo que é um Alfa, o líder de uma matilha?

Acha mesmo que tem de ser o Alfa lá de casa?

O Alfa (ou alpha) é a primeira letra do alfabeto grego e, no reino animal, nomeadamente ao nível do estudo comportamental, corresponde ao indivíduo com maior status dentro do grupo: o primeiro, aquele que tem o primeiro acesso à comida, o melhor local de descanso ou o primeiro acesso à fêmea para procriar.


Logo por aqui começo-me a questionar, caso tenha um casal de cães, se, enquanto "líder da matilha", vai mostrar ao seu cão quem é o Alfa lá de casa... mas adiante!


Sem dúvida que aquele que tem o estatuto de Alfa pode ser desafiado e perder sua posição com a chegada de um novo indivíduo. Contudo, isto só acontece com indivíduos da mesma espécie, num mesmo grupo.


Note-se que esta ideia de Alfa aplicada ao mundo canino não é totalmente descabida. A sua origem está na hierarquia que se pode identificar nas alcateias, em que o lobo com a posição mais elevada é o Alfa, seguindo-se o Beta, o Gamma e por aí adiante. Acontece, porém, que os nossos cães transportam o peso de séculos de domesticação, pelo que, nos dias de hoje, não têm comportamentos de lobos.


Se tem em casa um conjunto de cães, é possível que estabeleçam uma hierarquia entre eles. Mas esta relação estabelece-se dentro daquele grupo e normalmente entre cães com laços familiares. E assim, por muito que queira estar incluído/a, nunca será o Alfa, simplesmente porque você não é um cão!


Se porque domina o seu cão, contraria-o, "manda" nele, acha que é o Alfa, então o toureiro é o Alfa da touro, o cavaleiro do cavalo, o agricultor da vaca e do porco e, no limite, eu sou o Alfa dos caracóis do meu jardim.


No dia em que for capaz de abanar a cauda ou levantar as orelhas, poderá aspirar a ser o Alfa. Até lá, será sempre um humano que convive com cães.


Não é porque o seu cão tem comportamentos indesejados que deve assumir que ele está a tentar "mandar" ou a desafiá-lo/a. Se refletir um pouco, verificará que o seu cão não tem qualquer autonomia. É você que decide:
- quando come
- quanto come
- o que come
- quando faz as necessidades
- onde faz as necessidades
- os locais de passeio
- as horas de passeio
- a duração do passeio
- quando dorme
- onde dorme
- que brinquedos tem
- quando tem acesso a eles
- e...
- a capa que veste quando chove



Perante isto não acha normal que haja momentos em que ele queira fazer algo de específico? Não acha normal que haja momentos em que simplesmente não percebe o que pretende dele? Não acha normal que, aquilo que você vê como um "desafio" ele veja como uma brincadeira?


O comportamento indesejado do seu cão não significa que esteja a desafiar a "sua autoridade". Significa sim que não consegue compreender o que pretende dele, ou que a sua "atitude de Alfa" fez com que ele ficasse com medo de castigos, não respondendo, por isso, às suas solicitações.


Lá por não ser o Alfa não significa que não imponha regras e limites ao seu cão. Mas não adianta querer que ele tenha uma determinada postura se não utilizar uma linguagem adequada. Não adianta exigir comportamentos do seu cão se ele simplesmente não percebe o que pretende. Por isso, o primeiro passo a dar é aprender a comunicar com o seu companheiro.


Esta comunicação deve ser saudável, positiva, procurando desenvolver o seu potencial de aprendizagem. E em vez de se preocupar em exercer a sua autoridade de "líder da matilha", procure reforçar os bons comportamentos do seu cão, em vez de o castigar pelos maus. Desta forma, o seu companheiro procurará várias maneiras de agradar e de estar perto de si.


E lembre-se: é tão Alfa na sua relação com o seu cão como o homem do talho é com os frangos!



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